Às vezes penso que a vida é um desses faz de conta. Faz de conta que hoje eu sou uma outra pessoa. Quero isso, quero brincar de mentir, quero usar toda a licença poética que existe nisso. Me permitir mentir, sem peso na consciência.
Quero a sua ajuda. A ajuda dessa menina que eu vejo do outro lado do espelho, pois eu estava procurando alguém pra fingir ser e me veio ela, assim, simplesmente pipocou na minha mente. Sabe que, quando menor, eu costumava tentar pegar essa menina do espelho no menor deslize. A ideia e alguém imitando todos os meus movimentos me parecia rídicula, afinal de contas não era legal ser eu, então, não havia motivo pra alguém querer me imitar.
Essa eu do outro lado do espelho era insistente, e sempre ganhava. Até que um dia... Bom, um dia eu consegui descobrir a diferença entre nós duas. Quando eu ia, por exemplo, apertar uma espinha, ela simplesmente, mecanicamente me imitava, mas talvez fizesse isso por obrigação. E foi aí que notei a diferença.
Quando eu saía da frente do espelho, eu continuava a me apertar - por dentro e por fora - mas ela não. Ela ia pro mundo dela - aquele, do outro lado - e tentava viver uma vida normal. Sei disso por intuição, e minha intuição não costuma falhar.
Então, quando eu voltava pra frente do espelho, ela voltava também. Mas seu olhar era triste e desapontado, eu a estava obrigando a fazer certas coisas, e ela, por conta desse tipo de magia negra que nos prendia, tinha que fazer. Tinha que me imitar.
Um dia tentei olhar bem em seus olhos, e foi aí que percebi que queria ser ela, ou pelo menos fingir ser. Talvez ela fizesse as coisas de uma maneira diferente - e melhor. Talvez... se eu trocasse de lugar com ela, se eu fosse a aprisionada no espelho todos os meus problemas sumiriam, todos os meus demônios ficariam aprisionados lá também, e eu, por ser uma extensão dela, viveria as alegrias que ela viria a vivenciar - alegrias essas que talvez eu mesma nunca fosse capaz de viver por mim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário