sábado, 26 de maio de 2012

Oi, eu sou a dor

Um dia a menina cresce e a vida se torna obsoleta. Um dia a menina cresce e a dor permanece. Permanece pq é forte e decidida, permanece pq se acomodou na ferida aberta que é essa menina, e pq talvez seja tarde demais pra uma mudança. A dor tem casa, comida e roupa lavada. A dor comanda, muda de canal com o controle na mão. Hoje vou doer, hoje vou acabar com ela, pq ela é fraca, pq ela me escuta e nem ao menos tenta me dominar. Cortar os pulsos, da forma mais clichê que existe é muito mais fácil pra ela do que tentar me dominar. E olha que nem sou tão difícil de ser domada, e olha que minha natureza é ser dominada. Mas aqui encontrei residência fixa, e ao invés de pagar condomínio a dona da casa que paga pra eu ficar. Nessa menina encontrei toda a miséria de alguém que se rendeu. De alguém que se diz tão forte perante as coisas do mundo e cai diante de medos e carências e assuntos mal resolvidos, sem tentar revidar. Alguém que oferece a outra face, sempre. Alguém que prefere ouvir o próprio grito abafado, a tentar me fazer sumir. E eu só faço doer pra ver se ela cresce, se ela me encara, pq é pra isso que eu existo. E se ela, um dia, se matar, não vai ter sido eu a causa. Pq eu não controlo suas mãos, eu não a obrigarei a pegar aquela faca e muito menos a comprar tantos remédios. Eu simplesmente trouxe de volta lembranças, pra ela ver que tudo passou. Eu simplesmente a fiz olhar no espelho, pra ela ver que as marcas que tem, e as coisas que passa a fazem crescer. Eu só quero que ela perceba que essa vida não tem que ser medíocre. Eu sou a dor, e a minha função é te ensinar. Não tenho culpa se às vezes me mandam pra pessoas fracas demais. Não tenho culpa se me mandam pra uma fortaleza que não protege a si mesma. Eu não tenho culpa se às vezes me mandam à gênios que não crêem na própria genialidade. Eu sou a dor, e a minha função é doer. O resto é com vc, e com ela, e com ele.

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